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Mostrando postagens com o rótulo resumo

Jorge Luis Borges, um escritor na periferia, de Beatriz Sarlo

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Ao ser convidada para ministrar uma série de conferências sobre Jorge Luis Borges na Universidade de Cambridge, nos anos 1990, a intelectual argentina Beatriz Sarlo se viu sob a contingência de ser uma compatriota do escritor num espaço que era alheio a ambos, mas no qual este era lido em função de sua universalidade evidente, em vez de algum elemento tipicamente nacional que pudesse apresentar. Sem negar que a obra de Borges de fato se presta a esse tipo de leitura, Sarlo propôs uma investigação de suas relações com o pano de fundo local a fim de demonstrar que há ali uma real influência das questões nacionais e que são elas determinantes para as formulações estéticas que depois contribuirão para caracterizar a própria universalidade: a diferença em relação a outros escritores - e o motivo do tom nacional não ser de imediato reconhecido - vem de que em Borges não há propriamente a representação de elementos nacionais para discutir a nacionalidade, mas antes a formulação de uma pergunt...

Anjo Negro, de Nelson Rodrigues

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Em Anjo Negro, o local e o universal são indissociáveis. A um só tempo Nelson Rodrigues retrata o racismo brasileiro e evoca motivos próprios dos mitos e tragédias gregas. O dramaturgo é justamente conhecido por não se deixar deter por pudores na hora de expor as baixezas da sociedade em que vive; seria natural esperar, portanto, que a representação do racismo nacional fosse chocante, tanto é chocante na realidade essa doença social. Todavia, ao se valer da  tragicidade dos mitos gregos na exposição do problema local, o que já era abjeto se torna quase insuportável. Há assim um expurgo, a iluminação de uma chaga com luzes tão fortes que não mais é possível fingir que não se enxerga ou se resignar à inação. A catarse se impõe. A descrição do enredo é por si só desconcertante. Virgínia era órfã e por isso foi morar na casa de uma tia com várias filhas. Entre estas - jovens virgens que enfrentam dificuldades para casar -, certo dia uma delas arrumou um noivo. Próximo ao casamento, Vir...

Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues

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Em 28 de dezembro de 1943, Vestido de Noiva estreava no Teatro Municipal do Rio de Janeiro para produzir dois efeitos permanentes: delimitar o antes e o depois da história teatral brasileira, e consagrar Nelson Rodrigues como o maior dramaturgo do país. A novidade da peça estava no uso de ferramentas próprias da encenação para levar ao palco a subjetividade da protagonista. A exploração da psicologia das personagens já era uma realidade no romance, porém faltava à dramaturgia formular a linguagem e obter os meios através do quais uma experiência semelhante pudesse ser feita dentro da objetividade da cena. Na peça, Nelson consegue que o teatro represente o mundo interior e convence o público de que os meios empregados não são só admissíveis, como também necessários; vale dizer, nem mesmo o romance poderia obter os mesmos resultados estéticos.  Alaíde e a irmã Lúcia cresceram numa casa que fora propriedade de uma meretriz - Madame Clessi -, que deixara no porão vários diários contand...

O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues

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A peça O Beijo no Asfalto foi escrita por Nelson Rodrigues a pedido de Fernanda Montenegro em 1960. O título expressivo é o resumo do fato - ao mesmo tempo singelo e clamoroso - que dispara a ação dramática e os conflitos entre as personagens. O beijo dado gratuitamente é o gesto catártico que desafia os limites da compreensão e faz emergir inclinações reprimidas. Na obra, Nelson emprega o insólito para pôr à prova a normalidade aparente do entorno. Arandir e o sogro Aprígio vão à Caixa Econômica Federal para obter um empréstimo; no meio do caminho, um rapaz cai rente ao meio-fio e é atropelado por um lotação. No calor do momento, Arandir se aproxima do moribundo e o beija na boca. Entre outros passantes, o jornalista Amado presencia a cena. Por que Arandir beijou outro homem? Essa é a pergunta que persegue as personagens, incapazes que são de encontrar uma resposta ou renunciarem à busca. Duas testemunhas são responsáveis por difundir a notícia. Amado vê no que ocorreu uma oportunidad...

Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski

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  Vê-se com angústia que nem mesmo Dostoiévski - na última obra e depois de uma vida romanesca e inúmeras peças literárias dedicadas a perscrutar os desvãos da alma humana -, tenha conseguido chegar a uma resposta conclusiva, uma solução de compromisso que permita viver com tranquilidade e sem incertezas diante das grandes questões da existência. Defrontado pelos impasses do seu tempo - no fundo, os mesmos de antanho e do porvir -, o grande escritor russo não se furta a insinuar soluções e propor caminhos, porém sempre desconfiado do que diz e ainda perplexo quanto ao que se conserva infenso a qualquer elaboração verbal. Pinta alegremente a luz, mas sem deixar de carregar nas tintas das sombras circundantes, onde se esconde o incógnito. Expressa-se como quem diz que é humanamente possível apenas a aproximação do mistério do bem e do mal, que a fruta comida no Éden não bastou, e que só a misericórdia que tudo perdoa e esquece pode compor um quadro harmônico, borrando as margens do ...

Autobiografia: o mundo de ontem, de Stefan Zweig

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“ Mas a nossa geração aprendeu a fundo a boa arte de não lamentar o passado, e, quem sabe, a perda de documentos e detalhes possa vir a significar um ganho para este meu livro. Pois eu considero nossa memória um elemento que não conserva casualmente um ou perde outro, mas sim uma força que ordena cientemente e exclui com sabedoria. Tudo o que esquecemos de nossas próprias vidas, na verdade, já foi sentenciado a ser esquecido há muito tempo por um instinto superior. Só aquilo que eu quero conservar tem direito de ser conservado para outros. Portanto, recordações, falem e escolham no meu lugar, e forneçam ao menos um reflexo da minha vida antes que ela submerja nas trevas! ” [Do prólogo - p. 18.] Errante pelo mundo, distante do que lhe foi familiar, confrontado pelo futuro que se apresenta como brumas e estampidos brutos, Stefan Zweig se encontra nu no tempo e no espaço, capaz de se apoiar tão somente no que a memória lhe legou, matéria que, sem sua voz, periga se perder para sempre nas...

Ópera dos Mortos, de Autran Dourado

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Numa pequena cidade do interior mineiro, o casarão se ergue soturno e enigmático; é símbolo do que poderia ter sido e não foi, o extravagante gesto ancestral que, não obstante, restou detido no tempo sem se completar. Conquanto incompleta, a grandeza esboçada parece bastar para entreter a conversa miúda de toda gente, articular-lhe os sentidos e afetos rumo a uma possível unidade superior; mas por algum tempo apenas. Em Ópera dos Mortos, Autran Dourado nos apresenta as impressões deixadas na pequena cidade pela família Honório Cota, vocacionada pelas circunstâncias à proeminência local, e no entanto malograda nessa missão em virtude do desregramento dos representantes de três gerações, cada um a seu modo incapaz de corresponder aos anseios do entorno, e de ombrear a imponência e respeito inspirados pelos muros do casarão onde habitam. Lucas Procópio, patriarca da família, impôs-se à força no lugar, ao mesmo tempo inaugurando a história local e esgarçando os nervos dos concidadãos media...

A Morte e o Meteoro, de Joca Reiners Terron

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imagem da capa da 1ª edição da obra pela Todavia A Morte e o Meteoro é uma distopia discreta. O gênero se caracteriza pela concepção de uma sociedade futura na qual, ao contrário da utopia, as linhas gerais de funcionamento e organização sociais não são positivas e desejáveis, antes extrapolam tendências deletérias do presente, levando-as a consequências extremas; nesse sentido, a distopia serve como espaço propício ao exame do presente, daquilo que nele se encontra em germe, ameaçando crescer e desabrochar em flores tóxicas. No mais das vezes, porém, a linha causal que se estende do presente ao futuro distópico e permite a identificação dos problemas atuais acaba por ficar obscurecida, já que elementos circundantes e díspares se avolumam a ponto de só permitirem enxergar o futuro enquanto tal, e nada mais. A Morte e o Meteoro é uma distopia discreta porque a extrapolação das tendências deletérias do presente se dá de maneira tão sutil, que o leitor desatento pode deixar passar desperc...

O Primo Basílio, de Eça de Queirós

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Para se desdobrar, a complexidade do drama humano independe do nível geral de refinamento da sociedade em que se encontra inserto; porém, apenas a penetração da inteligência do indivíduo intrépido é capaz de a flagrar na fugacidade da sua ocorrência e cristalizá-la em arte, impedindo que se perca no tumulto indistinto dos dias, e assim aprofunde a baixeza da autoconsciência coletiva. N’O Primo Basílio, Eça de Queirós ergue sua lanterna e perscruta a Lisboa burguesa do século XIX, a fim de revelar-lhe os traços peculiares e contradições, ambicionando com esse movimento trazer luzes à sociedade que reputava cada vez mais periférica e esquecível.  No oitocentos luso, a marginalidade geográfica de Portugal parece se transformar em marginalidade também política e cultural, numa Europa em que a industrialização avança e a cultura se distancia das ideias de antanho, ao passo que o país ibérico guarda muito do campo e dos pensamentos alhures superados, resignando-se à nostalgia impotente d...