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O Aleph, de Jorge Luis Borges - Emma Zunz, A Casa de Astérion e A Outra Morte

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Emma Zunz Emma Zunz começa com o recebimento pela protagonista homônima de uma carta na qual é dito expressamente que "o senhor Maier [seu pai, que morava no Brasil] ingerira por engano uma forte dose de Veronal e falecera". Segue-se a descrição do mal-estar sentido por Emma e logo no início do terceiro parágrafo já é dada a informação de que se tratava de um suicídio: o caminho percorrido pela personagem entre a afirmação de uma morte acidental e a convicção íntima do suicídio não é explicitado. O suicídio, por sua vez, une-se no interior de Emma à confissão que o pai lhe fizera de que Loewenthal, com quem trabalhava, era o ladrão, derivando dessa circunstância e do erro no reconhecimento do verdadeiro culpado a também relembrada série de infortúnios que acometeram o pai e o afastaram para longe. Loewenthal ainda mantém contato com Emma por ser um dos donos da fábrica onde trabalha. No quarto parágrafo, Emma vive a sexta-feira como de costume, trabalhando na fábrica e conve...

Jorge Luis Borges, um escritor na periferia, de Beatriz Sarlo

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Ao ser convidada para ministrar uma série de conferências sobre Jorge Luis Borges na Universidade de Cambridge, nos anos 1990, a intelectual argentina Beatriz Sarlo se viu sob a contingência de ser uma compatriota do escritor num espaço que era alheio a ambos, mas no qual este era lido em função de sua universalidade evidente, em vez de algum elemento tipicamente nacional que pudesse apresentar. Sem negar que a obra de Borges de fato se presta a esse tipo de leitura, Sarlo propôs uma investigação de suas relações com o pano de fundo local a fim de demonstrar que há ali uma real influência das questões nacionais e que são elas determinantes para as formulações estéticas que depois contribuirão para caracterizar a própria universalidade: a diferença em relação a outros escritores - e o motivo do tom nacional não ser de imediato reconhecido - vem de que em Borges não há propriamente a representação de elementos nacionais para discutir a nacionalidade, mas antes a formulação de uma pergunt...

Oréstia, de Ésquilo - Agamêmnon, Coéforas e Eumênides

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A Oréstia , ciclo de tragédias escritas por Ésquilo que tem início com Agamêmnon , passa por Coéforas e termina com as Eumênides ocupa em razão do seu enredo uma posição central dentro da literatura e do mito gregos, na medida em que a Dinastia dos Atreus, cuja história conta, está implicada entre os motivos próximos da Guerra de Tróia, o que significa que desempenha protagonismo na Ilíada, de Homero, além de se desdobrar em outras peças nas quais são personagens destacadas Ifigênia, Electra e Orestes; também fornece o relato da consolidação dos deuses olímpicos diante dos homens e dos deuses antigos, feito cuja representação máxima é a transformação das Fúrias nas Benevolentes cultuadas aos pés da areópago. Agamêmnon tem início com uma cena emocionante: uma sentinela fora colocada em vigília para recepcionar um sinal que indicasse o fim da Guerra de Tróia. O local é Argos, cidade cujo rei, Agamêmnon, saiu há vários anos liderando os gregos numa expedição de guerra destinada a vinga...

O Aleph, de Jorge Luis Borges - análise de O Imortal e O Morto

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Os dois contos que abrem o livro O Aleph , de Jorge Luis Borges, a partir dos títulos estabelecem entre si um paralelismo ou relação de complementaridade, que vai além e se desdobra no que é contado e naquilo que cada um encerra da personalidade do escritor. Em O Imortal e O Morto estão reunidos os principais vetores da literatura borgeana: de um lado, a realidade que é feita e lida a partir dos livros, a erudição amplíssima e os questionamentos de cunho metafísico; de outro, o passado heróico da Argentina, a vida de aventuras que se expande dos arrabaldes de Buenos Aires em direção aos pampas, os atos de bravura dos " gauchos" , duelos e emboscadas; um e outro heranças de família, cujos integrantes, ora intelectuais ora indômitos conquistadores, colonizaram o país e se bateram nas lutas da fundação. A integração entre ambos os polos ocupou Borges no curso de sua obra, de modo que a sequência dos contos não é casual, mas antes uma metonímia do que virá. O Imortal O Imortal ...

Anti-Nelson Rodrigues, de Nelson Rodrigues

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A história de sedução contada em Anti-Nelson Rodrigues se diferencia da dinâmica usual do teatro do seu criador por apresentar uma protagonista íntegra, bravamente resistente na defesa dos seus valores contra as tentativas que fazem para desencaminhá-la. Ao contrário do que parece, porém, a obra não constitui um ponto de dissonância dentro do conjunto que integra; antes evidencia de forma original o que para Nelson Rodrigues é o amor capaz de resistir às tentações que tentam destruí-lo, no que ecoa episódios de peças anteriores. O enredo de Anti-Nelson Rodrigues é simples: de um lado, a família rica e disfuncional de Oswaldinho, playboy petulante e mau-caráter que deseja a morte do pai Gastão de olho na herança, enquanto rouba as joias da mãe para saldar as dívidas que não podem esperar; de outro lado, a família de classe média de Joice, jovem Testemunha de Jeová que deseja um amor para a vida toda e para ele se guarda, vivendo nesse meio tempo com o pai, Salim Simão, viúvo divertido q...

Toda Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues

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Toda Nudez Será Castigada é uma obra especialmente amarga na dramaturgia de Nelson Rodrigues. Não obstante o conjunto seja marcado por elementos grotescos e chocantes que conduzem o leitor à descrença na bondade humana, aqui não resta qualquer saída ou sinal de esperança, uma moral capaz de promover a pacificação entre o corpo e a alma. Na esteira do luto pela morte da esposa do protagonista, as personagens são colocadas num labirinto e obrigadas a lidar com as consequências do desejo sensual; porque nenhuma tentativa se mostra eficaz, parece caber ao leitor se resignar com a impossibilidade da felicidade terrena, aspirando a uma vida melhor em outro plano. Conquanto realizada esteticamente com maestria, a obra deixa um sentimento de frustração, desistindo da moral sem comunicar qualquer lição. O enredo da peça parte de Herculano, um viúvo que sofre com a perda da esposa, com quem teve um casamento convencional e feliz, embora sem grandes lances. Dependentes dele financeiramente, o irm...

Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues

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A peça Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, é tradicionalmente conhecida pela forma como apresenta a história do protagonista homônimo: por meio dos diferentes relatos fornecidos por Guigui ao sabor das flutuações emocionais que atravessa, o leitor nunca chega a saber ao certo quão vil ou heróico era o bicheiro de Madureira, muito menos os pormenores da relação fatídica entre ele e o casal Celeste e Leleco. A imprecisão serve para alimentar a aura mítica da personagem, aspirante a essa condição desde que decidiu substituir os dentes perfeitos pela dentadura de ouro que lhe deu a alcunha. Menos comentadas, no entanto, são as inverossimilhanças que permeiam o tempo presente da ação cênica, assim como o interior de cada versão contada por Guigui; somadas às variações inerentes às versões, elas podem ser tomadas como uma dupla afirmação do dramaturgo acerca tanto do caráter difuso do mito quanto da incoerência humana, que se articulam numa relação em que esta se serve daquele. Bicheiro poder...

Perdoa-me por me Traíres, de Nelson Rodrigues

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Com os três atos de Perdoa-me por me Traíres, a protagonista Glorinha é iniciada na vida adulta; na peça, iniciar-se na vida adulta é conhecer sem disfarces a degradação moral do entorno e a hipocrisia das aparências. O tio Raul, o outro protagonista, é o mestre que a conduz inadvertidamente no processo iniciático, seja como motivador das atitudes extremadas da moça, seja como sujeito ativo na exposição da verdade. Para Raul, expor a verdade é revelar a si mesmo e à família, comprometendo-se. Nessa perpetuação de um modo de vida degradado, Nelson Rodrigues cogita as consequências do amor impedido de ser no mundo, sugere o que seja o amor verdadeiro e liga o amor à morte, a posse à destruição. No primeiro ato, em clima de transgressão, as colegiais Glorinha e Nair chegam à casa de madame Luba, cafetina lituana cujo bordel é frequentado por políticos e garotas de boas famílias que procuram ali um dinheiro extra. Glorinha quer entrar, mas teme o tio Raul, que é severo; Nair insiste, Glori...

Doroteia, de Nelson Rodrigues

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  As quatro peças que integram o ciclo mítico de Nelson Rodrigues têm em comum o descolamento de tempo e espaço identificáveis. Apesar de elementos reconhecíveis como integrantes de uma sociedade historicamente determinada, o que nelas predomina são o essencial e o primitivo, de tal maneira que podem receber indistintamente a roupagem de culturas distantes ou a de um minimalismo que realce seu caráter arquetípico. Doroteia, “farsa irresponsável em três atos” que remonta a 1950, encerra o ciclo mítico promovendo um descolamento radical de tempo e espaço ao abolir as fronteiras da realidade, flertar com o surrealismo e, na visão de alguns, trazer para o palco o plano do inconsciente, assim como Vestido de Noiva fizera antes dela. O feminino, tão presente nas peças do dramaturgo, aqui é apresentado de forma igualmente radical, por meio da abolição completa das personagens masculinas. Mesmo a expressividade da face humana é radicalizada na sua cristalização em máscaras. O resultado é u...