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A República dos Sonhos, de Nélida Piñon

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  A República dos Sonhos, de Nélida Piñon, é romance de vulto publicado em 1984 - portanto há quase quarenta anos -, cuja pouca leitura e referência pelo leitor médio desde então só se explica por nossos persistentes desinteresse pela cultura e desigualdade social, e consequente baixa difusão dos bens culturais. O livro é grandioso por dois motivos: porque fornece panorama humano de grande amplitude e profundidade, com o qual se articulam importantes temas das histórias universal, brasileira e moderna; e porque consiste numa obra de fôlego, com aproximadamente setecentas páginas - obviamente, tamanho não importa qualidade, mas não deixa de ser interessante travar contato com um romance brasileiro tão extenso, quando nossa literatura historicamente se caracteriza por narrativas curtas. Nélida Piñon é brasileira nascida em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, mas brasileira recente, na medida em que sua família emigrou da Galícia rumo ao Brasil pouco antes de nascer, a fim de “fazer a América

A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe

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Após concluir a leitura d’A Cabana do Pai Tomás, o leitor não pode senão parar por um instante e admirar a ousadia de Harriet Beecher Stowe, mulher convencional sob muitos aspectos, nascida nos EUA de meados do século XIX, que, não obstante o ambiente à sua volta, permitiu-se espantar e condoer-se pelo problema da escravidão, e dar voz literária a esses sentimentos, inserindo-se assim no debate público num momento crucial, sem meias palavras, indo fundo na questão e inclusive pondo em perspectiva a própria posição de seus colegas do Norte, os quais, muito embora se engajassem na luta abolicionista mediante palavras e atos, nutriam profundo preconceito contra os negros, a ponto de sentir nojo de os tocar. Tanto a obra em seus pormenores quanto o que ela tem de audaciosa são testemunhos de que os problemas sociais mais arraigados exigem clarividência, atitude positiva e senso de urgência em sua solução, não se podendo confiar em sua natural e gradativa transformação; são também testemunh

Joseph Fouché, de Stefan Zweig

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Ler é um ato de incoerência. Se precisasse extrair uma única lição da leitura de Joseph Fouché, de Stefan Zweig, seria essa. Meu primeiro contato com o famoso escritor austríaco foi marcado ao mesmo tempo pelo interesse e pela sensação de que não devia estar lendo o livro. Ao final, só pude concluir - e reforçar uma percepção antiga - que nenhuma leitura jamais será feita em condições ideais, e pressupô-lo significa ficar parado entre as estantes da biblioteca do mundo, sem saber por qual livro começar. Joseph Fouché foi uma personagem real da virada do século XVIII para o XIX, homem público francês que desempenhou os mais importantes papéis desde a Revolução de 1789 até a restauração dos Bourbon, com a volta ao trono de Luís XVIII, passando, como não poderia deixar de ser, pelo período marcante e incontornável do governo de Napoleão Bonaparte. A lembrança que contemporâneos e posteridade reservaram a Fouché certamente não foi das melhores: o sucesso político e a formação da fortuna p

A Peste, de Albert Camus

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Desde que a editora Record passou a relançar as obras de Albert Camus com novo projeto gráfico, venho acumulando seus livros sem no entanto dar-lhes atenção. Fizera uma tentativa com O Homem Revoltado, mas desanimei no meio do caminho, não porque fosse ruim, e sim porque estava indisposto naquele momento a seguir, do princípio ao fim, o longo raciocínio filosófico que o autor desenvolvia. Nessa quarentena, contudo, vi-me estimulado a tentar novamente uma aproximação, desta vez pela via da ficção e do não mais do que óbvio A Peste. De fato, escolher A Peste como leitura neste momento foi, da minha parte, uma escolha clichê. Foi também uma escolha imbuída de certa hesitação, pois talvez não fosse o momento mais adequado para aprofundar a tensão já existente com um tema tão lúgubre por força da sua atualidade. Segui em frente, e não me arrependo de o ter feito. A leitura d’A Peste em plena pandemia do coronavírus é talvez uma oportunidade única para dar expressão não só literári

Seis Mil Anos de Pão, de Heinrich Eduard Jacob*

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Desse modo, seria pertinente dizer que o essencial para Jacob passa por devolver ao mundo e ao homem o ethos do seu relacionamento com as coisas, ou, com mais rigor, o ethos das coisas que, ao serem revitalizadas na estética da “Sachbuch”, deixam de fato de ser meras “coisas”. E, deixando de ser apenas “coisas”, passam a ser o quê? Passam a ter história própria, em vez de serem meros pretextos ou objetos de manipulação dentro de uma história dos homens que tudo antropomorfiza, passam a ter biografia, passam a ter um destino próprio. E, se assim é, passam também à condição de personagens de narrativas paradigmáticas, nas quais o destino dos homens se joga não em função das deliberações da sua racionalidade, apontada à dominação das coisas, mas precisamente em função de uma lógica da resistência das coisas à racionalidade humana. Em analogia com o que sucedia com o mito antigo, em que o destino dos homens é precisamente a resistência implacável que o acontecer oferece à vontade human

O Complexo de Portnoy, de Philip Roth

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Já falei por aqui mais de uma vez sobre o sucesso da minha experiência com os audiobooks; porém, sempre que o fiz, foi em termos de dinamização das leituras, facilidade de acesso e coisas do tipo. Enfim, a grande graça dos audiobooks até então estava, para mim, em serem um formato útil à minha vida de leitor. No entanto, com a escuta recente do audiobook d'O Complexo de Portnoy, de Philip Roth, minha visão sobre o formato foi elevada a um nível todo novo e superior, que me fez enxergar a vastidão de suas possibilidades em termos de interpretação dos textos pelos narradores. É a primeira vez que entro em contato com a obra de Roth. Não tinha especial interesse em conhecê-la, tampouco em evitá-la, tratava-se apenas de um escritor entre tantos outros, que estava naquela fila infinita de nomes por conhecer em razão da celebridade crítica, mas sem outros adjetivos que o ajudassem a passar na frente dos colegas. Sabia que ele tinha certas obsessões temáticas, entre elas a vi

Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han

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Privar-se de ler certos livros sob o argumento da falta de preparo é uma falha que impede o acesso a porções de conhecimento da maior importância. Acontece muito com poesia, ciências e filosofia. A leitura não é feita porque é preciso antes entender de métrica e escansão, dominar a linguagem especializada da ciência, ou ler todos os gregos e modernos para só depois ler o livro do filósofo contemporâneo que acaba de ser lançado. É certo que tradição e especialização não podem ser desprezadas, e que de um especialista é legitimamente esperado o domínio amplo do seu campo de conhecimentos; não é menos certo, porém, que a impossibilidade prática de em tudo especializar-se não impede o indivíduo de acessar campos do saber distantes de sua área de atuação, e que sua leitura leiga, conquanto menos profunda que a de um técnico, proporcionará a ele conhecimentos valiosos, capazes de alterar positivamente a rota de seus pensamentos e ações. Nesse contexto, é sempre um evento feliz qua