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Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski

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  Vê-se com angústia que nem mesmo Dostoiévski - na última obra e depois de uma vida romanesca e inúmeras peças literárias dedicadas a perscrutar os desvãos da alma humana -, tenha conseguido chegar a uma resposta conclusiva, uma solução de compromisso que permita viver com tranquilidade e sem incertezas diante das grandes questões da existência. Defrontado pelos impasses do seu tempo - no fundo, os mesmos de antanho e do porvir -, o grande escritor russo não se furta a insinuar soluções e propor caminhos, porém sempre desconfiado do que diz e ainda perplexo quanto ao que se conserva infenso a qualquer elaboração verbal. Pinta alegremente a luz, mas sem deixar de carregar nas tintas das sombras circundantes, onde se esconde o incógnito. Expressa-se como quem diz que é humanamente possível apenas a aproximação do mistério do bem e do mal, que a fruta comida no Éden não bastou, e que só a misericórdia que tudo perdoa e esquece pode compor um quadro harmônico, borrando as margens do clar

Autobiografia: o mundo de ontem, de Stefan Zweig

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“ Mas a nossa geração aprendeu a fundo a boa arte de não lamentar o passado, e, quem sabe, a perda de documentos e detalhes possa vir a significar um ganho para este meu livro. Pois eu considero nossa memória um elemento que não conserva casualmente um ou perde outro, mas sim uma força que ordena cientemente e exclui com sabedoria. Tudo o que esquecemos de nossas próprias vidas, na verdade, já foi sentenciado a ser esquecido há muito tempo por um instinto superior. Só aquilo que eu quero conservar tem direito de ser conservado para outros. Portanto, recordações, falem e escolham no meu lugar, e forneçam ao menos um reflexo da minha vida antes que ela submerja nas trevas! ” [Do prólogo - p. 18.] Errante pelo mundo, distante do que lhe foi familiar, confrontado pelo futuro que se apresenta como brumas e estampidos brutos, Stefan Zweig se encontra nu no tempo e no espaço, capaz de se apoiar tão somente no que a memória lhe legou, matéria que, sem sua voz, periga se perder para sempre nas

Ópera dos Mortos, de Autran Dourado

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Numa pequena cidade do interior mineiro, o casarão se ergue soturno e enigmático; é símbolo do que poderia ter sido e não foi, o extravagante gesto ancestral que, não obstante, restou detido no tempo sem se completar. Conquanto incompleta, a grandeza esboçada parece bastar para entreter a conversa miúda de toda gente, articular-lhe os sentidos e afetos rumo a uma possível unidade superior; mas por algum tempo apenas. Em Ópera dos Mortos, Autran Dourado nos apresenta as impressões deixadas na pequena cidade pela família Honório Cota, vocacionada pelas circunstâncias à proeminência local, e no entanto malograda nessa missão em virtude do desregramento dos representantes de três gerações, cada um a seu modo incapaz de corresponder aos anseios do entorno, e de ombrear a imponência e respeito inspirados pelos muros do casarão onde habitam. Lucas Procópio, patriarca da família, impôs-se à força no lugar, ao mesmo tempo inaugurando a história local e esgarçando os nervos dos concidadãos media

A Morte e o Meteoro, de Joca Reiners Terron

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imagem da capa da 1ª edição da obra pela Todavia A Morte e o Meteoro é uma distopia discreta. O gênero se caracteriza pela concepção de uma sociedade futura na qual, ao contrário da utopia, as linhas gerais de funcionamento e organização sociais não são positivas e desejáveis, antes extrapolam tendências deletérias do presente, levando-as a consequências extremas; nesse sentido, a distopia serve como espaço propício ao exame do presente, daquilo que nele se encontra em germe, ameaçando crescer e desabrochar em flores tóxicas. No mais das vezes, porém, a linha causal que se estende do presente ao futuro distópico e permite a identificação dos problemas atuais acaba por ficar obscurecida, já que elementos circundantes e díspares se avolumam a ponto de só permitirem enxergar o futuro enquanto tal, e nada mais. A Morte e o Meteoro é uma distopia discreta porque a extrapolação das tendências deletérias do presente se dá de maneira tão sutil, que o leitor desatento pode deixar passar desperc

O Primo Basílio, de Eça de Queirós

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Para se desdobrar, a complexidade do drama humano independe do nível geral de refinamento da sociedade em que se encontra inserto; porém, apenas a penetração da inteligência do indivíduo intrépido é capaz de a flagrar na fugacidade da sua ocorrência e cristalizá-la em arte, impedindo que se perca no tumulto indistinto dos dias, e assim aprofunde a baixeza da autoconsciência coletiva. N’O Primo Basílio, Eça de Queirós ergue sua lanterna e perscruta a Lisboa burguesa do século XIX, a fim de revelar-lhe os traços peculiares e contradições, ambicionando com esse movimento trazer luzes à sociedade que reputava cada vez mais periférica e esquecível.  No oitocentos luso, a marginalidade geográfica de Portugal parece se transformar em marginalidade também política e cultural, numa Europa em que a industrialização avança e a cultura se distancia das ideias de antanho, ao passo que o país ibérico guarda muito do campo e dos pensamentos alhures superados, resignando-se à nostalgia impotente da gl

Publicação das obras ficcionais completas de Dostoiévski é concluída pela Editora 34

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Com "Escritos da Casa Morta", a Editora 34 conclui a publicação das obras completas de ficção de Dostoiévski. Sabem quanto custa ter essa coleção completa? E quais são os títulos que a integram? Segundo informa a editora em seu site, "Escritos da Casa Morta" conclui a publicação das obras completas de ficção de Dostoiévski, as quais perfazem 23 títulos traduzidos diretamente do russo, muitos deles pela primeira vez. Pesquisando na Amazon, verifiquei que todos os 23 títulos estão disponíveis para venda*; portanto, trata-se de uma oportunidade única para quem deseja ter a obra completa do grande escritor russo na estante, já que é coisa rara a manutenção no comércio de todos os volumes de uma coleção assim tão extensa, publicada ao longo de um arco de tempo tão grande. Os títulos são estes: 1. Memórias do Subsolo: https://amzn.to/2WKtXYT 2. O Crocodilo: https://amzn.to/3hmWwFg 3. Niétotchka Niezvânova: https://amzn.to/2WOm04R 4. Duas Narrativas Fantásticas - A Dócil e

A República dos Sonhos, de Nélida Piñon

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  A República dos Sonhos, de Nélida Piñon, é romance de vulto publicado em 1984 - portanto há quase quarenta anos -, cuja pouca leitura e referência pelo leitor médio desde então só se explica por nossos persistentes desinteresse pela cultura e desigualdade social, e consequente baixa difusão dos bens culturais. O livro é grandioso por dois motivos: porque fornece panorama humano de grande amplitude e profundidade, com o qual se articulam importantes temas das histórias universal, brasileira e moderna; e porque consiste numa obra de fôlego, com aproximadamente setecentas páginas - obviamente, tamanho não importa qualidade, mas não deixa de ser interessante travar contato com um romance brasileiro tão extenso, quando nossa literatura historicamente se caracteriza por narrativas curtas. Nélida Piñon é brasileira nascida em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, mas brasileira recente, na medida em que sua família emigrou da Galícia rumo ao Brasil pouco antes de nascer, a fim de “fazer a América