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Mostrando postagens com o rótulo literatura brasileira

Vozes do Deserto, de Nélida Piñon

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  As histórias d’As Mil e Uma Noites atravessam os tempos e gerações de leitores. Seus personagens são aventureiros envolvidos em peripécias e fatos insólitos, que atualizam para o público possibilidades de vida que dificilmente viveria por si mesmo. O pano de fundo dessas histórias é conhecido: o califa que, depois de traído, decide se deitar com uma donzela a cada noite e matá-la ao nascer do sol; Scherezade, filha do vizir, que se entrega como donzela ao califa para evitar a matança, seduzindo-o com suas histórias sem fim e deste modo adiando o decreto de morte que paira sobre sua cabeça. Entretanto, o excesso dos dias, histórias e aventuras que se passam fazem sombra à história que permeia as outras e é o motivo de existirem: a vida íntima de Scherezade, sua humanidade periclitante e obrigada ao esforço criativo sob pena de morte; como foi viver assim por tanto tempo? Ao aproveitar-se do produto da imaginação de Scherezade, o leitor repete o despotismo do califa, passando ao la...

Ópera dos Mortos, de Autran Dourado

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Numa pequena cidade do interior mineiro, o casarão se ergue soturno e enigmático; é símbolo do que poderia ter sido e não foi, o extravagante gesto ancestral que, não obstante, restou detido no tempo sem se completar. Conquanto incompleta, a grandeza esboçada parece bastar para entreter a conversa miúda de toda gente, articular-lhe os sentidos e afetos rumo a uma possível unidade superior; mas por algum tempo apenas. Em Ópera dos Mortos, Autran Dourado nos apresenta as impressões deixadas na pequena cidade pela família Honório Cota, vocacionada pelas circunstâncias à proeminência local, e no entanto malograda nessa missão em virtude do desregramento dos representantes de três gerações, cada um a seu modo incapaz de corresponder aos anseios do entorno, e de ombrear a imponência e respeito inspirados pelos muros do casarão onde habitam. Lucas Procópio, patriarca da família, impôs-se à força no lugar, ao mesmo tempo inaugurando a história local e esgarçando os nervos dos concidadãos media...

A Morte e o Meteoro, de Joca Reiners Terron

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imagem da capa da 1ª edição da obra pela Todavia A Morte e o Meteoro é uma distopia discreta. O gênero se caracteriza pela concepção de uma sociedade futura na qual, ao contrário da utopia, as linhas gerais de funcionamento e organização sociais não são positivas e desejáveis, antes extrapolam tendências deletérias do presente, levando-as a consequências extremas; nesse sentido, a distopia serve como espaço propício ao exame do presente, daquilo que nele se encontra em germe, ameaçando crescer e desabrochar em flores tóxicas. No mais das vezes, porém, a linha causal que se estende do presente ao futuro distópico e permite a identificação dos problemas atuais acaba por ficar obscurecida, já que elementos circundantes e díspares se avolumam a ponto de só permitirem enxergar o futuro enquanto tal, e nada mais. A Morte e o Meteoro é uma distopia discreta porque a extrapolação das tendências deletérias do presente se dá de maneira tão sutil, que o leitor desatento pode deixar passar desperc...

A República dos Sonhos, de Nélida Piñon

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  A República dos Sonhos, de Nélida Piñon, é romance de vulto publicado em 1984 - portanto há quase quarenta anos -, cuja pouca leitura e referência pelo leitor médio desde então só se explica por nossos persistentes desinteresse pela cultura e desigualdade social, e consequente baixa difusão dos bens culturais. O livro é grandioso por dois motivos: porque fornece panorama humano de grande amplitude e profundidade, com o qual se articulam importantes temas das histórias universal, brasileira e moderna; e porque consiste numa obra de fôlego, com aproximadamente setecentas páginas - obviamente, tamanho não importa qualidade, mas não deixa de ser interessante travar contato com um romance brasileiro tão extenso, quando nossa literatura historicamente se caracteriza por narrativas curtas. Nélida Piñon é brasileira nascida em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, mas brasileira recente, na medida em que sua família emigrou da Galícia rumo ao Brasil pouco antes de nascer, a fim de “fazer a Amé...

Um Coração Ardente, de Lygia Fagundes Telles

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Tenho três livros de Lygia Fagundes Telles na estante: A Estrutura da Bolha de Sabão, As Meninas, e um terceiro, de cujo título nunca me recordo. Comprei-os numa dessas promoções de internet, um pouco pela oportunidade do preço, um pouco pela pretensão de ter uma biblioteca de literatura brasileira bem completa, um pouco ainda por saber que Lygia é uma escritora importante; nada mais. Não costumo me esquecer dos livros que tenho; portanto, essa circunstância de sempre esquecer-me do terceiro título de Lygia serviu para singularizá-los todos no meu imaginário. Para singularizá-los, repito, não para os recordar. Os anos se passaram até que, sem saber por qual motivo, finalmente li A Estrutura da Bolha de Sabão. Lembro-me de que fiquei bem impressionado com a autora, a ponto de não me esquecer do título de um dos contos, Confissão de Leontina, em que a paulista e intelectual Lygia se metamorfoseia numa mulher brasileira pobre e iletrada através de uma voz incrivelmente verossímil. A...

Resumo de Um Coração Ardente, de Lygia Fagundes Telles

Foi através da escuta de audiolivro que travei contato com Um Coração Ardente, de Lygia Fagundes Telles. Por ouvir os audiolivros em movimento, não tenho condições de anotar minhas impressões a respeito. Assim sendo, e por ter gostado sobremaneira dessa coletânea de contos, resolvi sentar-me e escutá-la detidamente, anotando enquanto escutava um resumo telegráfico. O propósito principal dessa empreitada era obter subsídios a fim de escrever um texto mais consistente a respeito do livro para este blog; percebi, no entanto, que as anotações que resumem os contos poderiam servir a outras pessoas - principalmente àquelas que já leram o livro e pretendem apenas recordar seus lances principais -, e por isso as disponibilizo neste blog. Desde já peço desculpas por eventuais erros na grafia dos nomes próprios, todos decorrentes do fato de não dispôr do livro físico. Um coração ardente: À beira da janela. Velho. Juventude. Vários gêneros literários. Um coração ardente. Pol...