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Plataforma, de Michel Houellebecq

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O traço mais característico a ser ressaltado na leitura de Michel Houellebecq é a permanente sensação de que se lê uma obra-prima destinada ao cânone, alta literatura da primeira à última palavra. Essa afirmação, ouvida sem maiores esclarecimentos, naturalmente conduz à conclusão de que se trata de um escritor de tom grandiloquente, hábil no manejo dos recursos de boa impressão que a tradição lhe legou; entretanto, essa é uma conclusão inteiramente equivocada: a grandeza do texto de Houellebecq está justamente na sutileza e transparência de sua qualidade - em outras palavras, lê-se as coisas mais banais e até asquerosas percebendo-se as qualidades e intenções mais elevadas que se escondem por detrás. Plataforma é um livro do começo dos anos 2000, anterior a Submissão, livro que levou o autor francês ao conhecimento de um público mais vasto do que o que já conquistara. Nele, acompanhamos pouco mais de um ano da vida de Michel Renault, funcionário público francês de nível medi...

Submissão, de Michel Houellebecq

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Submissão, de Michel Houellebecq, foi publicado no Brasil em 2015. Ao longo desses quase cinco anos, foram muitas e confiáveis as referências positivas à obra, numa quantidade tal que qualquer pessoa minimamente suscetível já teria de pronto lido o livro, sem maiores rodeios; um amigo em especial, com o qual estou sempre debatendo os assuntos literários, fazia referências constantes e entusiásticas ao autor, um de seus favoritos; some-se ao burburinho os temas da islamização da Europa e do multiculturalismo, que sempre estiverem em meu radar, e de fato não havia motivos para não ler Submissão. Mas eu não o li. Não o li até setembro deste ano, quando, de supetão, decidi fazê-lo. Acontece comigo de ficar como um burro empacado na leitura de determinados livros; não há explicação plausível, não se trata de uma ojeriza genérica a títulos muito falados e com “hype”, mas de simples empacamento de burro, sem argumentos a tentar convencer de sua posição como só um empacamento de burro po...

O Reino, de Emmanuel Carrère

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Tão logo alguém começa a estudar literatura mais a fundo, envolver-se mais de perto com as ciências humanas e os próprios fatos históricos, percebe com surpresa que a religião - e também os mitos - é uma constante das grandes produções da cultura, seja como objeto imediato, seja como interlocutora com a qual se dialoga, inclusive para discordar com veemência. A surpresa contemporânea é facilmente explicável pela laicidade do corpo social, que se manifesta não só como separação entre Religião e Estado, mas também como desencanto com a transcendência e ausência de cultura religiosa. Todavia, essa laicidade não explica como grandes obras de arte e do pensamento continuam a ser produzidas: afinal, todas elas não nascem de alguma forma do espanto com o mundo, da formulação de perguntas essenciais que guardam relação próxima com o transcendente? Se o desencanto é total, do que se têm nutrido aqueles que estão por trás dessas grandes obras? Por acaso houve alguma revolução no modo de pro...