Postagens

Publicação das obras ficcionais completas de Dostoiévski é concluída pela Editora 34

Imagem
Com "Escritos da Casa Morta", a Editora 34 conclui a publicação das obras completas de ficção de Dostoiévski. Sabem quanto custa ter essa coleção completa? E quais são os títulos que a integram? Segundo informa a editora em seu site, "Escritos da Casa Morta" conclui a publicação das obras completas de ficção de Dostoiévski, as quais perfazem 23 títulos traduzidos diretamente do russo, muitos deles pela primeira vez. Pesquisando na Amazon, verifiquei que todos os 23 títulos estão disponíveis para venda*; portanto, trata-se de uma oportunidade única para quem deseja ter a obra completa do grande escritor russo na estante, já que é coisa rara a manutenção no comércio de todos os volumes de uma coleção assim tão extensa, publicada ao longo de um arco de tempo tão grande. Os títulos são estes: 1. Memórias do Subsolo: https://amzn.to/2WKtXYT 2. O Crocodilo: https://amzn.to/3hmWwFg 3. Niétotchka Niezvânova: https://amzn.to/2WOm04R 4. Duas Narrativas Fantásticas - A Dócil e...

A República dos Sonhos, de Nélida Piñon

Imagem
  A República dos Sonhos, de Nélida Piñon, é romance de vulto publicado em 1984 - portanto há quase quarenta anos -, cuja pouca leitura e referência pelo leitor médio desde então só se explica por nossos persistentes desinteresse pela cultura e desigualdade social, e consequente baixa difusão dos bens culturais. O livro é grandioso por dois motivos: porque fornece panorama humano de grande amplitude e profundidade, com o qual se articulam importantes temas das histórias universal, brasileira e moderna; e porque consiste numa obra de fôlego, com aproximadamente setecentas páginas - obviamente, tamanho não importa qualidade, mas não deixa de ser interessante travar contato com um romance brasileiro tão extenso, quando nossa literatura historicamente se caracteriza por narrativas curtas. Nélida Piñon é brasileira nascida em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, mas brasileira recente, na medida em que sua família emigrou da Galícia rumo ao Brasil pouco antes de nascer, a fim de “fazer a Amé...

A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe

Imagem
Após concluir a leitura d’A Cabana do Pai Tomás, o leitor não pode senão parar por um instante e admirar a ousadia de Harriet Beecher Stowe, mulher convencional sob muitos aspectos, nascida nos EUA de meados do século XIX, que, não obstante o ambiente à sua volta, permitiu-se espantar e condoer-se pelo problema da escravidão, e dar voz literária a esses sentimentos, inserindo-se assim no debate público num momento crucial, sem meias palavras, indo fundo na questão e inclusive pondo em perspectiva a própria posição de seus colegas do Norte, os quais, muito embora se engajassem na luta abolicionista mediante palavras e atos, nutriam profundo preconceito contra os negros, a ponto de sentir nojo de os tocar. Tanto a obra em seus pormenores quanto o que ela tem de audaciosa são testemunhos de que os problemas sociais mais arraigados exigem clarividência, atitude positiva e senso de urgência em sua solução, não se podendo confiar em sua natural e gradativa transformação; são também testemunh...

Joseph Fouché, de Stefan Zweig

Imagem
Ler é um ato de incoerência. Se precisasse extrair uma única lição da leitura de Joseph Fouché, de Stefan Zweig, seria essa. Meu primeiro contato com o famoso escritor austríaco foi marcado ao mesmo tempo pelo interesse e pela sensação de que não devia estar lendo o livro. Ao final, só pude concluir - e reforçar uma percepção antiga - que nenhuma leitura jamais será feita em condições ideais, e pressupô-lo significa ficar parado entre as estantes da biblioteca do mundo, sem saber por qual livro começar. Joseph Fouché foi uma personagem real da virada do século XVIII para o XIX, homem público francês que desempenhou os mais importantes papéis desde a Revolução de 1789 até a restauração dos Bourbon, com a volta ao trono de Luís XVIII, passando, como não poderia deixar de ser, pelo período marcante e incontornável do governo de Napoleão Bonaparte. A lembrança que contemporâneos e posteridade reservaram a Fouché certamente não foi das melhores: o sucesso político e a formação da fortuna p...

A Peste, de Albert Camus

Imagem
Desde que a editora Record passou a relançar as obras de Albert Camus com novo projeto gráfico, venho acumulando seus livros sem no entanto dar-lhes atenção. Fizera uma tentativa com O Homem Revoltado, mas desanimei no meio do caminho, não porque fosse ruim, e sim porque estava indisposto naquele momento a seguir, do princípio ao fim, o longo raciocínio filosófico que o autor desenvolvia. Nessa quarentena, contudo, vi-me estimulado a tentar novamente uma aproximação, desta vez pela via da ficção e do não mais do que óbvio A Peste. De fato, escolher A Peste como leitura neste momento foi, da minha parte, uma escolha clichê. Foi também uma escolha imbuída de certa hesitação, pois talvez não fosse o momento mais adequado para aprofundar a tensão já existente com um tema tão lúgubre por força da sua atualidade. Segui em frente, e não me arrependo de o ter feito. A leitura d’A Peste em plena pandemia do coronavírus é talvez uma oportunidade única para dar expressão não só literári...

Seis Mil Anos de Pão, de Heinrich Eduard Jacob*

Imagem
Desse modo, seria pertinente dizer que o essencial para Jacob passa por devolver ao mundo e ao homem o ethos do seu relacionamento com as coisas, ou, com mais rigor, o ethos das coisas que, ao serem revitalizadas na estética da “Sachbuch”, deixam de fato de ser meras “coisas”. E, deixando de ser apenas “coisas”, passam a ser o quê? Passam a ter história própria, em vez de serem meros pretextos ou objetos de manipulação dentro de uma história dos homens que tudo antropomorfiza, passam a ter biografia, passam a ter um destino próprio. E, se assim é, passam também à condição de personagens de narrativas paradigmáticas, nas quais o destino dos homens se joga não em função das deliberações da sua racionalidade, apontada à dominação das coisas, mas precisamente em função de uma lógica da resistência das coisas à racionalidade humana. Em analogia com o que sucedia com o mito antigo, em que o destino dos homens é precisamente a resistência implacável que o acontecer oferece à vontade human...

O Complexo de Portnoy, de Philip Roth

Imagem
Já falei por aqui mais de uma vez sobre o sucesso da minha experiência com os audiobooks; porém, sempre que o fiz, foi em termos de dinamização das leituras, facilidade de acesso e coisas do tipo. Enfim, a grande graça dos audiobooks até então estava, para mim, em serem um formato útil à minha vida de leitor. No entanto, com a escuta recente do audiobook d'O Complexo de Portnoy, de Philip Roth, minha visão sobre o formato foi elevada a um nível todo novo e superior, que me fez enxergar a vastidão de suas possibilidades em termos de interpretação dos textos pelos narradores. É a primeira vez que entro em contato com a obra de Roth. Não tinha especial interesse em conhecê-la, tampouco em evitá-la, tratava-se apenas de um escritor entre tantos outros, que estava naquela fila infinita de nomes por conhecer em razão da celebridade crítica, mas sem outros adjetivos que o ajudassem a passar na frente dos colegas. Sabia que ele tinha certas obsessões temáticas, entre elas a vi...